Desacordadas
Da mesma forma que o hidromel era a bebida dos deuses, o Cidadão Respeitável, homem de família, sustentava-se de Inocência, néctar que poucas colmeias produziam naquele mundo contaminado. Mas tinham começado a correr rumores de uma poção capaz de despoluir a lagoa que azedara rápido depois da lua de mel, dando-lhe a esperança de poder voltar a banhar-se nas suas águas purificadas: uma poção para desacordar. Sem ter de rasgar collants, sem sofrer arranhões e sem a cara de nojo que o contemplava no fim. Ah, realmente era bem melhor de olhos fechados, depois que a retina que antes perfilava a sua imagem de galã passara a refletir um vazio opaco, sem cor ou gota de admiração.
Com os olhos fechados, podia colher uma inocência outra vez premium, que não se deixava perturbar e se mantinha mimosa até ao fim, renovando-se na noite seguinte. E ele podia continuar a ser o mesmo Cidadão Respeitável, que se abstinha de julgamentos e queria era que a vida corresse. Não havia dúvidas de que agora corria. A sua virilidade fora refeita e certificada à distância de uma câmara por outros tantos Cidadãos Respeitáveis, com quem se tinha lançado numa reconquista que há muito se impunha.
Ela acordava cansada de uma noite de sonhos que não deixava memória, inexplicavelmente dorida e coberta de perdigotos. Ao espelho, uma imagem muito diferente da que se via nas fotografias de casamento penduradas pela casa, naquele que à data acreditara ser o dia mais feliz da sua vida, sinal de uma felicidade que o futuro tornaria ainda mais risonha. Mas nem os paninhos de renda do enxoval tinham conseguido absorver o choque, o desengano dos filmes românticos, da mãe com vontade de ser avó e das tias casamenteiras que queriam vingar a desilusão com a vida doméstica recrutando noviças para o clube.
Escolhera, pois, um homem com potencial. Depois de em criança fazer germinar um feijão num copo com água e algodão, acreditara ter o poder de fazer o mesmo com qualquer semente boa. Dedicou-se à rega durante muito tempo – o tempo que a inocência aguentou depois de o mel acabar. No dia em que enfim cedeu, nem sentiu. Quase sem perceber, continuou a desempenhar o papel de esposa devota e quase feliz numa sonolência que lhe permitia também a ela levar a vida, ainda que manca. Desacordada o suficiente, nem sempre lembrada de ser sexy.
Infelizmente para ele, algumas noites tinham de ser apressadas. Era a altura em que lhe vinha a inspiração para o poema que deixara inacabado ou então precisava de acordar cedo para passear o dogue da filha quarentona. Outras vezes, cabia-lhe levar a mãe ao especialista dos olhos. Tinham de ser uns pros outros.
Fotografia (recorte): 2018 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados




Infelizmente nem sempre as relações humanas são pacificas e harmoniosas. Contudo, atitudes criminosas têm que ser punidas e , infelizmente tambem, nem sempre o são no tempo correto, de forma correta e justamente corretas. A sociedade jurídica (não sei se bem se mal) não tem formas expeditas de tratar estes casos e eu, na pele de avô estou a passar por uma experiência terrível,que não vejo como possa ser resolvida (e já corre na justiça) de forma célere para proteger quem não tem culpa absolutamente nenhuma do que se está a passar, a minha neta.