Gargalos
(…) e lá estamos nós, impacientes como feras prestes a ser alimentadas.
Andrea Köhler
Sabendo pouco ou nada de astrologia, os trânsitos dos astros teimam em atravessar-me a barriga. Desta vez, a sensação de congestionamento que dura há um par de meses fez-me querer tirar o assunto a limpo. E dizem os entendidos que começou no mês passado um fenómeno raro de conjunção de Neptuno com Saturno no signo de Carneiro que se dá apenas a cada 36 anos e que, da última vez, coincidiu com a queda do muro de Berlim. A barriga sabe coisas alheias à vontade e que escapam ao entendimento da razão.
De todo o modo, esta opressão contínua, como um céu cinzento que não se resolve em água nem azul, faz-se insustentável. É inútil querer resolvê-la à força, comandar os planetas, tentar empurrá-los para a amnistia da primavera: o trânsito não desata. Por esta altura, qualquer derrocada seria bem-vinda, desde que dissipasse a tensão. Quando o trânsito não se move, é como se os sinais deixassem de existir ou ficássemos permanentemente sem rede. O vento não traz notícias, a linguagem dos símbolos silencia-se. E o futuro é uma interrogação sem forma nem resposta.
O sentido de humor perde eficácia como antídoto; o engarrafamento resiste-lhe. Andrea Köhler, no seu esplêndido ensaio sobre a espera, diz que, à semelhança do sono, a espera é individual e não pode ser partilhada. Tem de ser deslindada dentro de cada um. Sem garantia de que sirva a um propósito e que o seu final traga qualquer fruto ou revelação, esta espécie de hibernação involuntária é o mesmo que entrar numa cápsula suspensa, sem destino anunciado. Com a espera, o tempo transforma-se não só num estado de espírito de que o corpo comunga, mas de que é o primeiro a dar-se conta.
A mente encara-o como mais um problema a resolver, uma tarefa que, se completada, trará o alívio do movimento. Só que, ao contrário do que dizem os mentores enérgicos do empreendedorismo, senhores da vontade pessoal, por vezes a tarefa é apenas esperar, deixar os mistérios subterrâneos entregues ao insondável andamento celeste, sem reclamar recompensas ou epifanias. Quem sabe se viver engasgado no tempo não é um modo de aprender a viver fora dele?...




Tenho receio de quem se lançou num ataque fraticida sobre o Irão ao mesmo tempo que já vai anunciando o segundo, não tenha compreendido o "gargalo" de Ormuz e que não perceba que a força bruta pode ganhar, mas a vitória pode não desatar o nó que despoletou o seu uso. Daí que a espera, que como muito bem referiu Andrea Kohler, não pode ser partilhada, tem de ser deslindada dentro de cada um.
E aí nem a conjugação eventualmente positiva dos astros nos tira a dor de barriga.