Quem me dera ser simples
Conhecendo o estorvo que a mente pode ser, penso muitas vezes em como gostava de ser simples. Numa passagem que lia há dias na obra de referência The Holographic Universe, de Michael Talbot, sobre a eficácia comprovada dos exercícios de visualização como adjuvantes de tratamentos médicos, segue-se uma alegação mais tremenda ainda, sobre o exemplo de uma mulher que recuperou de um tumor terminal:
Althouh the woman was inteligent in a wordly sense, she was only moderatly educated and did not really know the meaning of the word tumor – or the death sentence it imparted. Hence, she did not believe she was going to die and overcame her cancer with the same confidence and determination she’d used to overcome every other illness in her life, says Achterberg. (…) Achterberg backs up her claim by noting that the mentally retarded and the emotionally disturbed – individuals who cannot comprehend the death sentence society attaches to cancer – also have a significantly lower cancer rate.
A sugestão fez-me remontar aos tempos do primeiro confinamento, em 2020, quando liguei a uma pessoa conhecida para saber como estava e recebi a sua incredulidade condescendente quando, informando-me de que tinha ido para casa da mãe, comentava que a empregada doméstica, uma pessoa simples, não queria usar máscara nem percebia motivo para tal. Logo ali percebi eu a expressão do instinto não contaminado que os simples têm e que os leva a reagir de forma natural às desumanidades que a sociedade institui por decreto – o mesmo impulso que os leva a dizer a verdade sem olhar aos melindres da educação.
Não sendo geralmente pessoa de muitas palavras, essa foi uma época providencial para assistir às interpretações aleatórias que outros faziam sobre a causa do meu posicionamento – que revelavam não mais do que o seu modo de pensar e, acima de tudo, um nível mental que assumiam partilhado. Eram capazes do gesto generoso de adiantarem os motivos que teria para não me vacinar e não levar vida diferente da habitual, na medida do possível, fazendo ainda o favor de responderem a si próprios em meu nome. Quando, em vez de declarações taxativas, utilizavam a interrogação, não era porque estivessem interessados numa resposta, quanto mais não fosse porque a própria pergunta se baseava em pressupostos falaciosos, que condicionavam e impediam qualquer réplica.
Ainda não sou suficientemente desprendida para não me deixar perturbar com arremessos semelhantes, que continuam a repetir-se sob diferentes pretextos e em diferentes contextos, revelando a mesma altivez que presume saber as razões do comportamento alheio, incapaz de abandonar limites mentais autoimpostos. A propósito de rigidez mental, Michael Talbot alude na mesma obra aos “vórtices de pensamento”, um conceito proposto pelo psiquiatra David Shainberg para explicar os padrões de pensamento rígidos que dominam o nosso comportamento e nos impedem de assimilar novas ideias e informações:
When people with set beliefs converse with others, they try to justify their identities by espousing and defending their opinions. Their judgments seldom change as a result of any new information they encounter, and they show little interest in allowing any real conversational interaction to take place.
Embora tenha preferido a simplicidade ao usar termos como “pensamento”, “mente” e “informação”, o que está aqui em causa fundamentalmente é a expressão de diferentes níveis de consciência, que o comentador comum, erudito ou não, não mostra interesse em transcender. Não é nos simples que costumo encontrar superstição e arrogância. Quanto mais educados e sensatos, menos inteligentes me parecem, menos sensíveis. Mais arde a cobardia, disfarçada de moderação.
Cartoon The Sacrifice of Reason, da autoria de Bob Moran: https://www.bobmoran.co.uk/




Aí está uma questão muito interessante, tanto mais que a medicina está muito avançada excepto no que toca ao cérebro do ser humano, que continua a ser uma caixinha inexpugnável, talvez como mencanismo de auto defesa aos cérebros que o tentam conhecer.
A questão que se coloca é se a educação dos povos é afinal benéfica ou não, creio que sim se não não existiriam tantos regimes a evitar que elea chegue às massas. Certamente que tribo que vive na ilha de Sentinela do Norte não soube o que foi o Covid ou simplesmente nunca sofreu de tal doença, acreditando nós que também morrem.
Ou será que também não lhes chegou a noção de morte?