Conta de dividir
Acordei com a newsletter de Joe Hudson propondo-me o exercício de me apresentar ao nível da cabeça, do coração e do intestino – os nossos três “cérebros”. A cabeça foi a única que ficou empolgada com a pergunta tripla, recebida por um coração confuso e por um intestino não cooperante. A confusão do cérebro intermédio nascia da divisão que considerava desnecessária e a que não sabia responder, até que o cérebro de baixo se impôs com o seu “não” triunfante, deixando transparecer que a separação entre os três estava apenas a ser exposta e não maquinada.
Talvez não por acaso, a tendência dos últimos tempos, na área do desenvolvimento pessoal, centra-se em torno da regulação do sistema nervoso, associado ao intestino e ao cérebro reptiliano. Acontece que, quando todos os brados começam a unir-se num mesmo coro redentor, os meus ouvidos fazem-se moucos, descartando o que a mensagem possa trazer de útil. Ainda assim, a negação com que o intestino me surpreendeu ao convite de se apresentar – que não era inteiramente nova, convenhamos - fez-me parar para ouvir. Apesar de ser conhecida a expressão gut feeling, até recentemente não tinha as reações viscerais como merecedoras de confiança: acredito no sentido das hierarquias e por alguma razão o intestino está lá no fundo.
No entanto, por mais aéreos que nos tenhamos tornado, é inegável que a maioria de nós ainda lida com questões ligadas à sobrevivência: quando não física, psicológica. Não há também como negar que a cabeça e o coração não costumam ser os melhores amigos, tendo dificuldade em pôr-se de acordo. Que não conseguimos deslindar os segredos do corpo é por sua vez uma realidade manifesta na doença e na relação conturbada que temos com a comida, refúgio das emoções.
A verdade é que temos uma visão superficial do corpo, que há quem considere um nível mais denso da psique. Para o intestino, tendemos a empurrar as questões com que não queremos lidar, o mau e o bom misturado, privando-nos do seu potencial revelador. Esperamos que cumpra simplesmente a sua função, calando a vergonha da origem animal, enquanto o cérebro se dedica à sua escalada científico-tecnológica ou às ambições filosófico-espirituais, já inscrito na formação financiada pelo governo sobre IA e programação. O coração, desligado de um e de outro, é o parente tímido que se esconde nos bastidores, convidado para a festa só para não parecer mal.
Enquanto esse se empanturra às escondidas e o intestino exerce o seu domínio subterrâneo, a mente declama tratados pomposos. No desencontro entre os três, perdeu-se a unidade do ser, fazendo com que a voz da Sabedoria se fragmentasse. É inútil querer continuar a avançar num sentido ascendente sem reunir os fragmentos perdidos, desobstruir os recantos atravancados que teimam em fazer-nos tropeçar. Uma vez restaurada a circulação, talvez deixe de haver alto e baixo, uma direção obrigatória a seguir. Estaremos diante de um todo pulsante que, sem ignorar a expressão das suas partes, se terá tornado maior do que elas. E a esse… Ninguém ousa pedir para se apresentar.
In its most elementary form, the desire for control feels as if there is a clenched hand in your gut. What you find (...) is this elemental closed fist. And when you get close to this closed fist, you will find it has a protector. The protector of our elemental sense of control is rage. Usually this rage is more destructive than any feeling you ever wanted to admit could possibly exist within you.
Adyashanti
Fotografia: 2021 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados




A grande questão é mesmo essa, a maioria ainda lida com questões de sobrivência e atualmente, até mais psicológica do que física.
Com relação a esse terceiro cérebro, tenho aumentado sensivelmente a quantidade de fibras ingeridas pels manhã a fim de permitir uma melhor fluência de seu pensamento, algo como dar à sinapse intestinal uma espécie de ansiolítico, mas os resultados têm sido modestos. Talvez seja o caso de associar a nova dieta a alguma espécie de terapia.